A FLOR DE FLORBELA
Marcos Assumpção canta a poesia de Florbela Espanca
A poesia sensual, radical, trágica e passional da portuguesa Florbela Espanca ganha vida nova com a música do niteroiense MARCOS ASSUMPÇÃO no CD “A Flor de Florbela”, quinto e mais maduro trabalho do cantor, compositor e violonista.
Principal figura feminina da poesia portuguesa do início do século XX, Florbela tem 17 de seus poemas musicados por MARCOS, que traz para a linguagem musical do século XXI o universo literário de uma voz original e marcante da literatura universal.
As melodias fluentes, as harmonias construídas com delicadeza e as interpretações com a dose certa de dramaticidade ganham reforço nos arranjos que, além do violão afiado do autor, recebem uma instrumentação de complexa variedade. Convivem, no disco, violões de nylon, aço, doze cordas e slide, com harpa, oboé, fagote, viola de gambá, violoncelos, violinos, violas. Baixo fretless, bateria e percussão com flautas, clarinete, banjo, bandolim.
O resultado soa atemporal, respeitando a tradição da melhor MPB com e dando às canções a universalidade necessária a uma poesia que desperta paixões na primeira leitura.
Nascida em 8 de dezembro de 1894 e morta na mesma data, em 1930, Flor Bela Lobo, (depois Flor d´Alma de Conceição Espanca) começou a escrever aos sete anos, quando fez um poema que dava pistas de como seria sua obra densa e ousada: “A Vida e a Morte”.
Filha do fotógrafo João Maria Espanca, que levou o cinematógrafo para Portugal, estudou no Liceu de Évora, foi uma das raras mulheres a fazer o curso secundário em terras portuguesas, cursou direito, teve três casamentos, abortos, tentativas de suicídio.
Seus poemas carregam linguagem tão sedutora que alguns críticos chegam a identificar um certo “donjuanismo” na sua obra.
A relação dos poemas escolhidos para o CD dá idéia da precisão dos versos e dos temas de Florbela Espanca: “Os Versos Que Te Fiz”, “Se Tu Viesses Ver-me”,”Caravelas”, “Noite de Saudade”, “Errante”, “Inconstância”, “A Flor do Sonho”, “De Joelhos”, “Mentiras”, “Amar”, “Maria das Quimeras”, “Desejos Vãos”, “Horas Rubras”, “O Fado”, “Vozes do Mar”, “Poetas” e “Só”.
Do cantor dos versos talhados em mármore da primeira faixa ao poeta que chora com a lua, na música final, todas poderiam, muito bem, ser temas das serestas que MARCOS ASSUMPÇÃO ouvia quando começou a tocar violão, aos 9 anos de idade, influenciado pelo pai seresteiro.
O jovem que, aos 17, acompanhava estrelas como Zé Kéti e Adelaide Chiozzo nas rodas de samba e choro promovidas por seu pai, ganhou experiência como músico da noite, em bares e festas.
Em 1995 chamou atenção do pesquisador Ricardo Cravo Albin, que o levou ao primeiro show, “Clave de Luz!” e, mais tarde, do compositor Sérgio Natureza, que convidou MARCOS para fazer parte do elenco do antológico show “Balaio do Sampaio”, homenagem ao capixaba Sérgio Sampaio no Teatro Rival, do Rio.
Recordista de bilheteria do projeto Novo Canto (1998), ao lado de outro fã de Florbela, o cearense Fagner, MARCOS ASSUMPÇÃO vem mesclando as funções de autor e intérprete em cinco discos, geralmente bem recebidos pela crítica e pelas rádios especializadas do país.
Com “A FLOR DE FLORBELA” ele dá seu passo mais ousado, ao transformar em notas os versos densos da portuguesa. E quem ganha é o ouvinte, por ter na música um facilitador para conhecer algumas das melhores obras da literatura poética do século XX.
KIKO FERREIRA – jornalista e crítico musical
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O que vem a ser “A Flor de Florbela”? Não é tão simples explicar – até porque a vida e a obra de Florbela Espanca, que inspiraram este trabalho, de simples não têm nada.
Nascida Flor Bela Lobo, em 8 de dezembro de 1894, esta escritora portuguesa foi precursora do movimento feminista em seu país e a primeira mulher a frequentar o curso de Direito na Universidade de Lisboa. Teve uma vida tumultuada, inquieta: rejeição do pai; três casamentos; abortos involuntários; divórcios, que a tornaram vítima de preconceito social; perda do irmão em um acidente de avião; desequilíbrio mental e, finalmente, morte na terceira tentativa de suicídio, justamente no dia de seu aniversário, em 1930.
“A Flor de Florbela” é o resultado de um mergulho de três anos nesta obra, que se caracteriza por uma efervescência de sentimentos tão comuns a todos nós – amor, dor, tristeza, solidão, melancolia, erotismo, ternura e desejo de felicidade. Seu objetivo não é somente divulgar os poemas de Florbela, mas, acima de tudo, mostrar a essência de uma mulher que escrevia de uma forma muito pessoal e com uma genialidade ímpar. A palavra "flor", no título, significa muito mais do que as violetas e os crisântemos que a escritora tanto adorava... É uma referência à alma de Florbela, aqui representada mesmo que em uma pequena amostra.
Nos 17 poemas selecionados e musicados (ao todo, foram 24 nesses três anos de pesquisas), procurei manter-me fiel à arte de Florbela, reproduzindo quase todas as suas palavras. Permiti-me apenas pequenas adaptações, ora por questões de atualização da língua portuguesa, ora para uma melhor divisão melódica: por exemplo, em Horas Rubras substituí "languescentes" por "tristes, lânguidos". Modificações que, creio, não alteraram substancialmente a ideia original da escritora – nem a contrariariam tanto quanto a versão do poema publicada no Livro de Sóror Saudade e que, embora diferente dos manuscritos, ficou conhecida por seus leitores.
Na pesquisa por arranjos que alcançassem a sonoridade que a poesia de Florbela exige, e integrando-a à melodia, mesclei instrumentos barrocos, eruditos e renascentistas. Desde viola da Gamba, oboé, fagote, clarinete e harpa – não muito comuns no dia a dia – até violino, viola, violoncelo, baixo acústico, gaita, flauta, banjo, bandolim, percussão, bateria, órgão hammond, e violões de aço, de nylon, 12 cordas, dobro, e slide. Pela primeira vez, fiz os arranjos de um disco meu, juntamente com Francisco Falcon, que também dividiu comigo a produção e a direção musical .
“A Flor de Florbela” é, em linhas gerais, o trabalho apaixonado de um admirador da obra de Florbela Espanca. Tomara que ele também incentive você a mergulhar, musicalmente, em uma poesia da mais alta qualidade.
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